Laura Pujol: “é importante as pessoas terem livre acesso ao estudo da Medicina”

Por Dilton Santiago | Fotos: Valter Xeu

O jornal Bahia Municípios conversou com Laura Ivet Pujol Torres, Cônsul-Geral da República de #Cuba para a Região Nordeste do Brasil, cuja sede é em Salvador. A entrevista com a diplomata aconteceu na Cantina da Lua, no Pelourinho, principal trincheira de resistência do lugar, sob as bênçãos e olhar atento do seu fundador, Clarindo Silva, que, com muita simpatia e simplicidade, estava nos aguardando: “Podem entrar, a casa é de vocês”. A entrevista com a diplomata transcorreu em clima de bate papo, tendo Laura, em bom português, respondido a diversos temas como a expectativa criada com a posse do recém-presidente eleito de Cuba, Sr. Miguel Díaz-Canel, sobre o sucesso do programa federal que garantiu mais médicos para o Brasil, da preferência de universitários de 135 países cursarem medicina nas fac uldades cubanas, além claro, da sua definição de cores e sabores dessa terra que ela aprendeu a chamar de sua.

 Jornal Bahia Municípios – Laura, há quanto tempo você está no Brasil exercendo o cargo de Cônsul-Geral de Cuba para o Nordeste?

 Laura Pujol – Há quatro anos, tendo minha missão diplomática iniciada em novembro de 2013, quando o governo decidiu instalar na Bahia, o primeiro consulado cubano no nordeste de Brasil.

 JBM – O que o mundo pode esperar do novo presidente eleito de Cuba, Sr. Miguel Díaz-Canel?

 Laura Pujol – No mandato do novo presidente Miguel Díaz-Canel, acreditamos não haver espaço para mudanças bruscas, em relação aos governos anteriores, caminhamos para a continuidade do modelo socialista cubano e suas diretrizes de solidariedade, nosso sistema não permitiria que fosse de outra forma. Díaz-Canel é uma pessoa que já milita há anos no grupo político da direção do país, há mais de dez anos vinha ocupando a vice-presidência de Cuba, então ele conhece bem a dinâmica política do país e saberá garantir que seja respeitada a vontade popular.

JBM – O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, se posicionou contrário ao acordo de reaproximação entre Washington e Havana feito por Barack Obama, em 2014. Desde então, o que mudou na relação entre os dois países?

 Laura Pujol – Na era Obama, houve um processo da retomada de relações entre Cuba e Estados Unidos, e esse processo vinha fluindo bem, trazendo resultados concretos e que foi interrompido com a chegada de Donald Trump à Casa Branca, que retomou a retórica belicista dos anos da guerra fria, que impõem uma política muito agressiva, muito hostil, perante a Cuba, e nós não temos absolutamente nenhuma expectativa que este cenário seja modificado. O governo Trump tem outras prioridades políticas e está utilizando Cuba como moeda de câmbio, para obter apoio no tratamento de questões internas que ele precisa resolver nos Estados Unidos. Não tem lógica nenhuma esse retrocesso, Cuba não está de acordo, mas, certamente nós não iremos fazer nenhuma concessão envolvendo a reto mada de relações que violem os interesses e a soberania cubana.

 JBM – Sem dúvida, a maior contribuição de seu país ao Brasil está inserida no Programa Mais Médicos. Qual a análise que você faz dessa iniciativa?

 Laura Pujol –A Bahia é o segundo Estado brasileiro com mais médicos cubanos, abaixo apenas de São Paulo, atualmente temos mais de oito mil médicos trabalhando no Brasil, com uma extraordinária média de aceitação em todas as localidades por eles atendidas, sobretudo, aqui no Nordeste, onde atuam quase três mil médicos cubanos. O consulado possui jurisdição em todo o Nordeste, então eu acompanho de perto a qualidade desses atendimentos, giro bastante, mantenho intercâmbio com as autoridades, ouço o depoimento das pessoas atendidas e realmente dá certo, há um retorno sempre positivo das pessoas que são atendidas na sua localidade, onde antes não havia médicos para prestar o atendimento tão necessário para a condição básica da sua sa úde.

 JBM – Você acredita que a partir dessa aceitação por parte da população assistida, possa haver expansão no número de médicos cubanos no programa?

 Laura Pujol – Cuba tem disposição de fornecer quantos médicos o Brasil precisar, não temos limite para a quantidade de médicos a serem graduados, temos a convicção de que a sociedade precisa de atendimento médico de qualidade e incrementar o número de especialistas é fundamental. Nós, em Cuba, temos o suficiente, atualmente os médicos cubanos estão atuando em mais de 60 países, isso nos garante uma expertise de alto nível, sendo os médicos cubanos profissionais experientes, que já conhecem a realidade social e epidemiológica de outros países, o que contribui muito para um diagnóstico preciso da doença, sempre levando em conta o bem- estar de quem está sendo atendido, sem abrir mão da qualidade no atendimento. Então, para nós, & eacute; uma grande satisfação e os médicos estão satisfeitos com a participação no programa.

 JBM – A empresa baiana, Bahiafarma, vem despontando no cenário mundial assumindo total autonomia na produção e distribuição de alguns medicamentos que eram importados de outros países. Em Cuba existe a Biocubafarma, pioneira em desenvolvimento de medicação e pesquisa para várias doenças. Existe um projeto de cooperação técnica envolvendo as duas empresas?

 Laura Pujol – Já tem anos de tratativa entre a Bahiafarma e o governo de Cuba para a troca de biotecnologia entre as duas empresas; antes mesmo de abrirmos o consulado aqui no Brasil, já havia o interesse de termos essa parceria. Porque temos várias áreas de desenvolvimento em comum, atualmente estamos trabalhando no registro da medicação Heberprot, que é o medicamento desenvolvido para evitar a amputação do pé diabético e que está sendo registrado aqui no Brasil, e nesse processo estão as tratativas para que a Bahiafarma trabalhe com medicamentos para este tipo de doença, então é bem provável que as conversações apontem para um intercâmbio. Existe um bom conhecimento, tanto de Cuba, quanto da Bahia, reforçando a ideia de trabalharem em conjunto.

JBM – Há um interesse muito grande por parte dos brasileiros cursarem Medicina nas universidades cubanas, como você vê essa questão?

Laura Pujol – Esta é uma questão muito importante para o governo de Cuba, temos muito interesse para que os brasileiros cursem Medicina em nossas universidades, sobretudo por se saírem muito bem no processo Revalida. Depois que eles retornam para o Brasil, eles conseguem fazer bem o Revalida, que consiste em um processo burocrático que tem que ser realizado. Os altos índices de aprovação no Revalida apontam para a excelência na qualidade do ensino de medicina em Cuba, então, esse quadro positivo é responsável pelo interesse de muitos brasileiros estudarem medicina em Cuba; outro fator, é o preço relativamente baixo em comparação ao que se cobra aqui.

JBM – Quanto um brasileiro paga para cursar Medicina em Cuba?

 Laura Pujol – O preço do ano retrasado foi de 55 mil dólares pela graduação e oscila entre 55 a 85 mil dólares pela carreira completa, que é de seis anos de estudo, há facilidades no pagamento, o que torna nossos cursos acessíveis.

 JBM – Essa média de preço é válida para outras graduações, a exemplo de Engenharia, Direito e outros cursos?

Laura Pujol – Estamos focados para promoção do curso de Medicina, não tenho precisamente, agora, o valor de outros cursos, mas, as universidades cubanas estão aptas a realizarem graduações em todas as especialidades.

 JBM – Quanto custa a graduação para um estudante cubano?

 Laura Pujol – Prestamos serviços educacionais remunerados apenas para o estrangeiro, para os cubanos a educação é gratuita, faz parte dos direitos do cidadão.

 JBM – Muitos médicos graduados em outros países optam por fazer especialização em Cuba, qual é o diferencial oferecido por Cuba em relação a outros países da América Latina?

 Laura Pujol – Sim, nós temos a Escola Latino-Americana de Medicina que recebe estudantes de 120 países, e que tem, hoje, cerca de seis mil alunos matriculados em 15 especialidades no campo da Medicina. Temos também a Escola Latino-Americana de Esportes. Estas são as nossas principais universidades públicas de nível internacional. Além destas, há diversas faculdades cubanas que abrem matriculas para estudantes cobrando um preço relativamente acessível. Em nossas faculdades há muitos estrangeiros pagantes, por acharem interessante tanto a proposta financeira quanto a docente.

JBM – Como funciona em Cuba, o sistema de bolsas de estudo?

Alguns países da América Central, via convênio com o governo cubano, adotam bolsas para que alunos possam estudar em Cuba. Esta é outra modalidade dentro do nosso sistema educacional, pelo conhecimento que oferecemos nada se pede em troca, o que se espera é que o estudante tenha uma formação voltada para uma vocação social, com interesse pelo trabalho nas comunidades, é o que se faz durante todo o ensino e é o que normalmente acontece, inclusive aqui no Brasil, você vê que estudantes graduados pela Escola Latino-Americana de Medicina estão realmente exercendo a Medicina com foco na família, em projetos comunitários, entretanto, não há monitoramento dos formandos depois que eles saem de Cuba; eles são livres para trabalharem nas mais diversas áreas da Medicina tradicional e em grandes hospitais privados. O importante é garantir que qualquer pessoa tenha acesso a estudar Medicina; democratizar o acesso à carreira de Medicina é uma das diretrizes do nosso trabalho.

 JBM – Você falou da importância de facilitar o acesso à graduação de Medicina. Vivem hoje, na Bolívia, cerca de 25 mil brasileiros, parte desse contingente estudando Medicina. Qual a importância desse fator para a América do Sul?

 Laura Pujol – A democratização do ensino, sobretudo do ensino superior, é vital para o desenvolvimento de qualquer país; é preciso fazer investimentos permanentes para que toda sociedade se beneficie de uma educação pública de qualidade. Cuba levou anos implantando essa política, esse planejamento é vital para enfraquecer o discurso das faculdades privadas que aliam alto custo nas mensalidades à contrapartida de oferecer uma graduação de excelência. Democratizar o acesso a graduação de medicina é um dos pilares do nosso trabalho.

JBM – Como estão as relações de livre comércio entre o Brasil e Cuba?

Laura Pujol – Nós estamos trabalhando para estimular o intercâmbio econômico e comercial entre Bahia e Cuba, os produtores e exportadores baianos olham muito para São Paulo e não possuem uma visão de internacionalização de negócios em relação à América Latina, então isso cria certas dificuldades para concretizarmos nossos projetos, acredito que se trata de uma questão que tem que ser mais trabalhada, nossa relação comercial já foi maior, agora percebemos um leve declínio.

 JBM – Quais são os produtos brasileiros que mais interessam ao governo cubano?

 Laura Pujol – Atualmente, Cuba investe com a importação de produtos brasileiros cerca de 150 milhões de reais, produtos em sua maioria importados das regiões Sul e Sudeste. Da Região Nordeste, compramos calçados, diversos tipos de grãos, a exemplo de soja e milho, compramos também um tipo de alumínio específico para uso na construção civil, isso representa pouco em nossa balança comercial, no passado já compramos muito mais. Acredito que a Região Nordeste possui potencial para se aproximar do nível de competitividade para exportação que tem o eixo sul e sudeste.

 JBM – Laura, desde 1993, a Câmara de Vereadores de Salvador tornou Havana capital de Cuba, cidade-irmã de Salvador; aspectos culturais e históricos são muitos parecidos. Qual a sua opinião sobre esse tratado?

 Laura Pujol – Criar vínculo de solidariedade e cooperação técnico-científico entre Salvador e Havana foi meu primeiro desafio, aqui chegando em novembro de 1993. Inclusive, naquela data, realizou-se na câmara de vereadores, uma sessão especial nos dando boas-vindas. Acho que há toda uma justificativa histórica e política para existir esse irmanamento e acho que devemos trabalhar mais por concretizá-lo; é desejo do consulado estreitarmos esse vínculo, estou, inclusive, participando de alguns projetos de iniciativa cultural que possam unir ainda mais os nossos povos.

JBM – Por certo, você já conhece muito bem o nosso Carnaval, e sobre a possibilidade de termos músicos cubanos no palco do Trio Elétrico?

Laura Pujol – Tenho certeza que daria certo. Estou certa que em cinco minutos teria muita gente pulando atrás do trio, porque nossos ritmos são muito parecidos e seria a oportunidade de difundir algo diferente, mas isso tem que ser feito ainda, o Carnaval da Bahia é uma manifestação que exige um retorno imediato de todo investimento na preparação da festa. Para nós, não concebe como projeto de função cultural.

JBM – Você está na Bahia há um bom tempo, me arrisco a dizer que você é a “Cubaiana” mas simpática (risos) que nós temos. Qual a sua impressão de nossa cidade?

Laura Pujol – Vocês são muitos abençoados, e não são cientes de toda beleza natural, de todo patrimônio cultural, de todo patrimônio imaterial que ostentam, tenho muito orgulho e a sorte de estar aqui nessa terra, realmente a Bahia é completa sob o ponto de vista das manifestações que apresenta da gastronomia, da cultura , da música e literatura, das lindas paisagens, de um povo alegre e acolhedor. Vocês têm uma terra muito rica, em minha modesta opinião vocês não cuidam muito bem de toda essa riqueza que possuem e como não se orgulham e não são cientes, não protegem muito estas questões, esse é um erro que vai custar caro a longo prazo, porque há um tempo para promover determinadas ações de preservação e que se n&atild e;o são feitas, se não houver cuidado, as manifestações culturais se perdem no tempo, se não são protegidas. Isso me preocupa um pouco.

JBM – O que mais te fascina na gastronomia baiana?

Laura Pujol – Obviamente a utilização do dendê, do coco, a forma de fazer os diversos tipos de pratos que acompanham esses ingredientes, esse jeito de preparação dos alimentos, as moquecas, o peixe, o camarão, esse jeito de preparar o alimento com aquela raiz africana forte, com identidade bem específica aqui da Bahia, que dá uma comida muito gostosa que você não consegue explicar. Tem que experimentar mesmo para saber o que é.

JBM – O que você achou do nosso patrimônio acarajé ?

Laura Pujol – O acarajé me faz perder a cabeça.

JBM – É seu prato preferido?

Laura Pujol – Não! Eu tenho muitos, tem o bobó de camarão, as moquecas todas, gosto de todos os doces também, as sobremesas que fazem aqui também são inesquecíveis, bem doces como fazemos também em Cuba, é uma festa dos sentidos, tem o feijão verde nordestino também que eu gosto muito, quando eu vou ao interior, mais pro sertão, a carne-de-sol, há uma infinidade, mas sobretudo os peixes e a sua forma de preparo.

 JBM – Estamos em época de Copa do Mundo, Laura, você arriscaria algum palpite, já que sua seleção não se classificou?

 Laura Pujol – Nada, em futebol estamos perdidos, você não vá ficar chateada comigo, mas, em Cuba nós temos duas torcidas, temos a torcida do Brasil e a torcida da Argentina, qualquer desses dois países que ganhe, nós sentimos que ganhamos a Copa do Mundo. Para nós são duas nações que nos orgulha e nos faz sentir parte de uma seleção de futebol, já que somos tão ruins, jogando futebol (risos). Sempre que me perguntam em Cuba se o melhor é Pelé ou Maradona, eu sempre digo: os dois.

 JBM – Voltando aos negócios, Laura, para finalizarmos, Cuba acabou de sediar mais uma Feira Internacional do Turismo,  qual a sua expectativa?

 Laura Pujol – Esse é um dos nossos principais eventos onde contamos com uma participação internacional muito grande e a expectativa é a continuidade no crescimento do turismo, após a mudança de política norte-americana à Cuba, o turismo continua crescendo em ritmo impactante, esperamos  superar os cinco milhões de turistas que nos visitam anualmente, apostando que teremos uma excelente temporada turística, porque temos muitos anos de investimentos nessa área, tornando o roteiro Cuba um dos destinos mais procurados do mundo.

Fonte: Jornal Bahía Municipios

http://www.bahiamunicipios.com.br/laura-punjol-a-democratizacao-do-ensino-sobretudo-do-ensino-superior-e-vital-para-o-desenvolvimento-de-qualquer-pais/

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